segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Deus no Gibi entrevista Amaro Braga

DEUS NO GIBI - ENTREVISTA

Por Fernando Passarelli
Versão original: acesse: http://www.deusnogibi.com.br/entrevistas/amaro-braga/ 
Se o Amaro Xavier Braga fosse um super-herói, ele seria daqueles que podem acessar vários poderes, tamanha a diversidade de sua formação acadêmica. É doutor em Sociologia, especialista em Ensino de História das Artes e das Religiões, em Artes Visuais e Gestão de Educação à Distância, e tem um grande envolvimento com a aplicação dos quadrinhos na educação. Não é por menos que hoje ocupa a presidência da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial, a ASPAS. E, pra não sair da analogia, as ASPAS é como uma “Liga das Justiça”, porque reúne uma série de outros ‘heróis’ que estudam os quadrinhos em profundidade. “Promovemos uma mudança no cenário da pesquisa acadêmica, a partir do momento que os resultados destas pesquisas são divulgados e se transformam em produtos com maior circulação em outras esferas sociais”, explica Amaro, que também é co-autor do livro “Religiosidade nas Histórias em Quadrinhos”. Nessa entrevista, ele fala sobre o trabalho da ASPAS, o uso das HQs em sala de aula e relação entre fé e produção artística.
DEUS NO GIBI – Estamos em 2017 e ainda discutimos o uso das histórias em quadrinhos como ferramenta educacional. Por que isso ainda acontece?
AMARO BRAGA – Acredito que este panorama seja fortemente influenciado pelo histórico – e estereotípico – preconceito em relação aos quadrinhos. A ênfase como objeto infanto-juvenil e entretenimento fugaz ainda prevalecem e dificultam perceber as HQs como objetos artístico-midiáticos de entretenimento com forte impacto social e representação cultural. Se as HQs são uma mídia, e o são, deve-se esperar que, como tal, tenham a possibilidade de guardar e transmitir informação, já que é isso que uma mídia faz. Sendo assim, ainda se faz necessário desenvolver estudos diversos sobre as potencialidades das HQs e seus impactos concretos na sociedade, visando uma compreensão mais ampla do que a atual. É por isso que devemos continuar a estimular o uso das HQs, não apenas no ensino básico – que já cresce com muitas iniciativas, mas também no ensino superior, o que pode auxiliar a mudança de seus status, tradicionalmente, desvalorizante.
DEUS NO GIBI – De que forma a ASPAS, Associação dos Pesquisadores de Arte Sequencial, pode ajudar a mudar esse quadro?
AMARO BRAGA – A ASPAS surgiu com o intuito de reunir pesquisadores e pesquisadoras que vêm se dedicando a estudar as diversas interfaces das histórias em quadrinhos e ambientes congêneres. Ao reuni-los, fortifica e promove o desenvolvimento de novas gerações de pesquisadores, que se sentem estimulados por um cenário profissional mais acolhedor e valorizador de pesquisas. Fazendo isso, promovemos uma mudança no cenário da pesquisa acadêmica, que termina por afetar a própria maneira como as histórias em quadrinhos são vistas pela sociedade, a partir do momento que os resultados destas pesquisas são divulgados e se transformam em produtos com maior circulação e penetração em outras esferas sociais.
DEUS NO GIBI – Como tem sido a reação dos professores e educadores ao trabalho da ASPAS?
AMARO BRAGA – Tem sido bem positivo. Temos feito eventos cujas as atividades envolvem a capacitação de professores, principalmente na cidade de Leopoldina (MG), onde fica no sede, visando estimular o uso das HQs na sala de aula e a compreensão sobre a rica gama de possibilidades que se relacionam com as histórias em quadrinhos, tanto no que tange à pesquisa, quanto à produção e consumo. Também temos investido na produção e circulação de livros – fruto destas pesquisas – que estão associados a esta inserção das HQs na sala de aula.
DEUS NO GIBI – Como é possível defender, junto a esses mesmos professores, a aplicação dos quadrinhos em sala de aula quando muitos estão querendo, sim, é usar as lousas digitais, tablets e outro recursos multimídia?
AMARO BRAGA – Partido do princípio que estas ferramentas não são excludentes. É possível sim, usar os quadrinhos, ou sua linguagem, mediadas pelas lousas digitais, tablets e recursos multimídia. Inclusive, é aconselhável! As publicações de quadrinhos nos dias atuais já usam dos ambientes do ciberespaço para se divulgarem e serem lidas. Nada mais justo que os professores se apropriem destes materiais com intuito de desenvolver a aprendizagem e reduzir os custos com a atividade pedagógica. Ao invés da escola ter 30 ou 40 edições de uma mesma revista ou história, basta ter acesso ao volume digital e compartilhá-lo nos tablets. No livro sobre religião eu falo como pastores e missionários estão usando softwares gratuitos de produção de web-tiras e web-comics para produzir tirinhas e quadrinhos com temáticas religiosas visando atingir o público infantil ou simplesmente propagar sua fé. Estes softwares facilitam a produção por deixarem prontos, num banco de imagens, diversos personagens, objetos e cenários, que podem ser acessados, ajustados e modificados para criar uma HQ ou tirinha, mesmo que o programador não saiba desenhar. É um verdadeiro processo de revolução na maneira de produzir quadrinhos.
DEUS NO GIBI – Ou seja: papel, ilustrações e balões de fala ainda conseguem ajudar na educação dessa geração?
AMARO BRAGA – Sim, em certa medida. Ou podem atuar na transição inter-midiática: levar este material para sua versão digital, se for o caso.
DEUS NO GIBI – Que recursos a ASPAS disponibiliza para os educadores?
AMARO BRAGA – Além dos cursos de capacitação, um banco de publicações sobre o tema e uma revista científica que recebe artigos sobre o tema.
DEUS NO GIBI – Quais são as publicações da ASPAS, até o momento, sobre pesquisa e uso de quadrinhos em sala de aula?
AMARO BRAGA – São: “Arte Sequencial em Perspectiva Multidisciplinar”, organizado por Iuri Andréas Reblin e Márcio dos Santos Rodrigues, que reúne diversos trabalhos sobre múltiplos aspectos, entre eles, a questão da sala de aula; “Religiosidade nas Histórias em Quadrinhos”, organizado por mim e Iuri Andréas Reblin, que apesar do tema específico apresenta como a linguagem das HQs vem sendo usada como instrumento pedagógico entre grupos religiosos; “O Planeta Diário: Rodas de Conversa sobre Quadrinhos, Super-heróis e Teologia”, do Iuri Andréas Reblin, enfatizando como as HQs podem ser objetos mediadores de uma compreensão teológica no ensino religioso; “As Histórias em Quadrinhos e a História: Práticas que ultrapassam fronteiras”, de Natania Nogueira, retratando sua trajetória no uso das HQs na sala de Aula. A ASPAS também foi uma grande colaboradora da coleção“Quadrinhos e Educação”, organizado pelo Thiago Modenesi e por mim, com a colaboração de quase todos os sócios. As publicações saem desde 2015, pela Faculdades dos Guararapes (PE), e estão no quarto volume: “Relatos de Experiências e Análises de Publicações” (Vol.1), “Procedimentos Didáticos” (Vol.2), “Fanzines, Espaços e Usos Pedagógicos” (Vol.3) e “Experiências Docentes, Inferências Pedagógicas e Análises de Políticas Públicas” (Vol.4). A ASPAS também foi co-editora de “Questões de Sexualidade nas Histórias em Quadrinhos”, organizado por mim, em parceria com a editora universitária EDUFAL, e de “Representação do Feminino nas Histórias em Quadrinhos”, organizado também por mim e a Valéria Fernandes da Silva. Nestes dois últimos a questão da educação sexual e de gênero se interliga com os quadrinhos. Nestes dois livros há diversos artigos sobre o uso das publicações para à educação para a diversidade, por exemplo.
DEUS NO GIBI – O que mais vem pela frente?
AMARO BRAGA – Nos próximos meses será lançado um livro meu que foi produzido numa ampla pesquisa, entre 2013 e 2015, mapeando todas as publicações de quadrinhos relacionadas as religiões no Brasil, que se chama “Religiosidade nas Histórias em Quadrinhos Brasileiras”. É um levantamento inédito que mapeia tudo que foi feito no nosso território, publicado em revista, tira, cartuns e digitais. E um dos focos importante é identificação de como as HQs foram sendo utilizadas para o ensino religioso por budistas, kardecistas, umbandistas, muçulmanos, judeus e cristãos católicos e protestantes.
DEUS NO GIBI – Qual a influência da ‘fé’ de um autor na criação e desenvolvimento dos seus personagens e narrativas em quadrinhos? O ‘criador’ (de HQ) sempre irá fazer sua ‘criatura’ (personagem/roteiro) à sua imagem e semelhança?
AMARO BRAGA – Há dois aspectos que devem ser considerados. Em primeiro lugar, todo e qualquer produtor de quadrinhos, seja ele roteirista ou desenhista, insere, conscientemente ou não, valores pessoais durante o processo de produção material. Venho discutindo estes elementos nas minhas pesquisas. Como as HQs são produtos culturais, contém dentro de si valores da cultura em que são produzidas. Valores ambientados na cultura, no espaço e no tempo em que são produzidas. Não há como evitar isso. Em segundo lugar, se examinarmos os quadrinhos religiosos, a função deles é justamente imprimir valores religiosos específicos que são idealizados pelos seus produtores. Há desenhistas que abdicaram do mercado aberto de HQs apenas para se dedicar à produção de quadrinhos cristãos que não iriam de contra as suas ideologias religiosas, ou missionários que tem se dedicado a produzir quadrinhos de super-heróis brasileiros com a temática cristã. Podem até se recusar a fazer ou ler quadrinhos que discutam outros temas devido às questões teológicas. Isso mostra que, pra eles, sim, seus quadrinhos representam sua imagem e se assemelham a um “trabalho de Deus” e, portanto, precisam se adequar àqueles parâmetros religiosos. Mas é preciso ter cuidado, pois nem ‘sempre’ isso acontecerá. Um desenhista ou roteirista, devido aos contratos profissionais, pode, eventualmente, fazer algo fora do seu escopo. Mas a tendência é que seus produtos estejam impregnados em algum nível com seus ideais estéticos, sociais, culturais, políticos e religiosos.
DEUS NO GIBI – Numa nação predominantemente católica, que passa pelo crescimento da fé evangélica neo-pentecostal, existem muitas publicações envolvendo religião?
AMARO BRAGA – É muita publicação sendo produzida de maneira ininterrupta ao longo das décadas e em todos os níveis: de tirinhas, passando por álbuns seriados de quadrinhos e outras experiências estéticas como webcomics e webtiras. Os quadrinhos cristãos superam com folga as demais esferas religiosas e o crescimento protestante e neo-pentecostal pode também ser observado nestas publicações. Praticamente todas as denominações neo-pentecostais tem publicação de quadrinhos infantil visando evangelização. A grande questão é que estas publicações não circulam em bancas de revistas, mas em ambientes próprios e por assinatura, em circulação restrita. Eu tenho feito um levantamento que visa identificar as produções explícitas que se relacionem na interface quadrinhos e religião. Já o professor Iuri Reblin tem desenvolvido pesquisas que analisam o discurso teológico em publicações de quadrinhos que não necessariamente possuem uma relação explícita com a religião. São quadrinhos comerciais, por exemplo, e, mesmo assim, possuem um discurso religioso. Mas, quando falamos em gênero de quadrinhos religiosos, eles são muitos e constantes.
DEUS NO GIBI – Por último, nos gibis, em geral, quem é Deus e qual papel ele desempenha?
AMARO BRAGA – Asim como acontece na diversidade religiosa, “Deus” nos quadrinhos assume diversas formas de acordo com os valores de quem produz a HQ. Não há uma visão absoluta e unificadora da deidade. Uma coisa é certa: ele nunca é esquecido.


Para acompanhar o trabalho da ASPAS, acesse: